PrimeLife (Ano VI)

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Alimentando o Lobo certo

lobo1Como seres humanos, temos o potencial de nos libertarmos de antigos hábitos e também de amar e nos dedicarmos a outras pessoas. Temos a capacidade de despertar e viver conscientemente, mas, como devem ter percebido, também temos uma forte tendência a permanecer adormecidos. É como se estivéssemos sempre em uma encruzilhada, escolhendo sem cessar o caminho a seguir. A qualquer momento podemos escolher o caminho da clareza e felicidade ou da confusão e dor.

Nesse sentido, a fim de fazer uma escolha sábia, muitas pessoas voltam-se para práticas espirituais de diversos tipos, na expectativa de que a vida se ilumine e de que possa encontrar forças para enfrentar as dificuldades. No entanto, nessa busca é crucial ter em mente o contexto mais amplo no qual fazemos essas escolhas de vida: esse é o contexto de nossa amada terra e das circunstâncias difíceis que a envolvem.

Para muitas pessoas, a prática espiritual representa uma maneira de relaxar e um acesso à paz espiritual. Queremos nos sentir mais calmos, mais concentrados; e com nossas vidas agitadas e estressantes quem poderia nos culpar? Entretanto, temos a responsabilidade de pensar com mais grandeza em nosso cotidiano. Se a prática espiritual é relaxante, se traz alguma paz espiritual, isso é maravilhoso, porém essa satisfação pessoal nos ajuda a interagir com os acontecimentos no mundo? A questão principal é se vivemos de um modo que exacerba a agressão e o egoísmo, ou estamos contribuindo para um equilíbrio mental essencial?

Muitas pessoas sentem-se profundamente preocupadas com a situação do mundo. Sei que desejam com sinceridade que as circunstâncias mudem e que os seres humanos, no mundo inteiro, libertem-se do sofrimento. Mas pensando com honestidade, será que temos alguma ideia de como pôr em prática essa aspiração em nossas vidas? Percebemos se nossas palavras e ações causam sofrimento? E, mesmo quando reconhecemos que estamos cometendo erros, temos alguma intuição sobre como parar? Essas sempre foram questões importantes, mas agora se tornaram vitais. Esse é o momento em que se livrar de uma situação confusa é mais importante que a felicidade pessoal. Trabalhar nosso eu para termos mais consciência de nossas mentes e emoções talvez seja o único caminho para encontrar soluções que proporcionem o bem-estar de todos os seres e a sobrevivência da terra.

Pouco depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 circulou uma história que ilustra nossa dilema. Um índio norte-americano conversava com o neto sobre violência e a crueldade do mundo. Ele disse que o motivo era a luta de dois lobos em seu coração. Um dos lobos era vingativo e zangado, e o outro, compreensivo e gentil. O jovem perguntou ao avô qual lobo venceria a luta em seu coração. E o avô respondeu: “Aquele que vencer será o que escolhi alimentar.”

Então, esse é o nosso desafio, o desafio da prática espiritual e o desafio do mundo. Como podemos começar agora, e não mais tarde, a alimentar o lobo certo? Como podemos recorrer à nossa inteligência inata para perceber o que ajuda e o que fere, o que aumenta a agressividade e o que revela nossa bondade e benevolência? Com a economia global caótica e o meio ambiente do planeta em risco, a guerra violenta e a crescente intensidade do sofrimento, chegou o momento em nossas vidas em que precisamos mudar nossa maneira de pensar e fazer tudo que for possível para reverter essa situação. Até mesmo um ligeiro gesto de alimentar o lobo certo ajudará. Agora, mais do que nunca, estamos todos envolvidos em um mesmo contexto.

A mudança de pensamento e atitude implica um compromisso conosco e com a terra, um compromisso que nos libertará antigos rancores, de não mais evitarmos pessoas, situações e emoções que nos causam desconforto, de não nos apegarmos aos nossos medos, à nossa intolerância e visão restrita, à nossa insensibilidade e hesitação. É o momento de desenvolver confiança em nossa bondade básica e a de nossos irmãos e irmãs na terra; um momento para desenvolver confiança em nossa capacidade de livrar-nos de antigas formas de imobilismo e de escolher com sabedoria. É possível agir desse modo aqui e agora.

Em nossos encontros cotidianos, podemos viver de uma maneira que ajude esse aprendizado. Quando falamos com alguém de quem não gostamos e não concordamos com sua opinião, seja um membro da família ou um colega de trabalho, temos a tendência de despender uma grande quantidade de energia ao sentir raiva. Porém, nossos ressentimentos e egoísmos, apesar de familiares, não constituem nossa natureza básica. Temos uma aptidão natural para eliminar antigos hábitos. Sabemos como é reconfortante ser gentil, como amar tem o poder de transformar, que alívio sentimos quando nos libertamos de antigos rancores. Com apenas uma pequena mudança de perspectiva, perceberemos que as pessoas agridem e falam coisas desagradáveis pelas mesmas razões que nós. Com senso de humor é possível ver que nossas irmãs e irmãos, nossos parceiros, filhos e colaboradores estão nos deixando loucos do mesmo modo como deixamos os outros loucos.

O primeiro passo nesse processo de aprendizado é ser honesto com si mesmo. A maioria das pessoas tem sido muito bem-sucedida em aumentar a negatividade e a insistir em que o lobo zangado fique cada vez mais brilhante, enquanto o outro estende os olhos suplicantes. Mas não estamos presos a essa maneira de ser. Quando sentimos ressentimento ou uma emoção forte, reconhecemos que estamos nos exaltando e percebemos que é possível fazer uma escolha consciente entre ser agressivo ou se acalmar. Trata-se de escolher o lobo que queremos alimentar.

É claro, se pretendemos testar essa abordagem, é preciso ter alguns indicadores. É necessário ter um método para seguir esse caminho da escolha sábia. Esse caminho leva à descoberta de três qualidades do ser humano, três qualidades básicas que sempre estiveram presentes em nós, porém foram enterradas e quase esquecidas. Essas qualidades são a inteligência natural, a cordialidade natural e a abertura natural. Quando digo que o potencial da bondade existe em todos os seres, isso significa que todas as pessoas, em todos os lugares, no mundo inteiro, possuem essas qualidades e podem usá-las para ajudar a si mesmas e aos outros.

A inteligência natural está sempre acessível. Quando não estamos presos na armadilha da esperança e do medo, sabemos por instinto como agir corretamente. Se não estivermos obscurecendo nossa inteligência com a raiva, autocomiseração ou ansiedade, percebemos o que pode melhorar ou agravar a situação. A intransigência de nossas reações emocionais provoca um comportamento agressivo e palavras irracionais. Desejamos ser felizes e ficar em paz, mas quando nossas emoções vem à tona, de algum modo os métodos que usamos para alcançar essa felicidade só nos fazem mais infelizes. Nossos desejos e ações não estão , em geral, em sincronia. No entanto, temos acesso à inteligência fundamental que pode nos ajudar a solucionar nossos problemas e vez de piorá-los.

A cordialidade natural é a nossa capacidade compartilhada de amar, de ter empatia e senso de humor. É também nossa capacidade de sentir gratidão, valorização e ternura. É o conjunto do que, com frequência, é chamado de qualidades do coração, inerentes aos seres humanos. A cordialidade natural tem o poder de curar todos os relacionamentos, a relação com nós mesmos, com as pessoas, animais e com tudo que nos deparamos no dia a dia de nossas vidas.

A terceira qualidade da bondade básica é a abertura natural, a amplidão de nossas mentes. Nossas mentes expandem-se, são flexíveis e curiosas e, portanto, sujeitas a prejulgamentos. Esse é o estado mental antes que afundemos em uma visão baseada no medo, em que todos são inimigos, uma ameaça ou um aliado, alguém de quem gostamos ou não, ou a quem ignoramos. Mas, em sua essência, a mente que temos, que você e eu temos, é aberta e receptiva.

Podemos nos conectar com essa abertura mental a qualquer momento. Por exemplo, neste momento, por três segundos, pare de ler e faça uma pausa. Se conseguir fazer essa breve pausa, talvez vivencie um instante de pensamento livre.

Outra maneira de apreciar a abertura natural é pensar em momentos em que sentiu raiva, quando alguém disse ou fez alguma coisa que lhe desagradou, em que quis se vingar ou desabafar. Mas, e se nessas ocasiões tivesse conseguido interromper esse processo, respirar fundo e diminuir o ritmo da reação? Teria, assim, se conectado com a abertura natural. Você é capaz de parar, abrir espaço e fortalecer o lobo da paciência e da coragem, em vez do lobo da agressão e da violência. Quando fazemos uma pausa, nossa inteligência natural quase sempre surge para nos salvar. Temos tempo para refletir: por que queremos dar esse telefonema desagradável, falar algo maldoso, ou beber um drinque ou inalar uma substância nociva, ou qualquer outra coisa do gênero?

É inegável que queremos agir desse modo porque nesse estado exaltado acreditamos que isso nos trará algum alívio. Que resultará em algum tipo de satisfação, resolução ou conforto: pensamos que nos sentiremos melhor no final. Porém, se pararmos para nos questionar: “Eu me sentirei melhor quando isso terminar?” Ao abrir esse espaço de reflexão, a inteligência natural terá a oportunidade de expressar o que já sabemos: que não nos sentiremos melhor no final. E por que sabemos isso? Por que, acredite ou não, essa não é a primeira vez que sentimos esse impulso, essa mesma estratégia de acionar o piloto automático. Se fizermos uma pesquisa de opinião, é provável que a maioria das pessoas diga que, em suas vidas pessoais, a agressão gera agressão. Ela aumenta aos poucos a raiva e a insatisfação em vez de trazer a paz.

Se, neste momento, a nossa reação emocional ao nos depararmos com uma determinada pessoa ou ao ouvirmos certas notícias é a de enraivecer-nos, ou ficarmos desanimados, ou outra sensação igualmente extremada, é porque há muito tempo cultivamos esse hábito. No entanto, como meu professor Chögyam Trungpa Rimpoche costumava dizer, podemos abordar nossas vidas como um experimento. No próximo momento, na hora seguinte, somos capazes de escolher fazer uma pausa, diminuir o ritmo, ficar tranquilo por alguns segundos. É possível interromper a cadeia de reação usual, e não se descontrolar da maneira habitual. Não precisamos culpar ninguém, nem a nós mesmos. Quando estamos em uma situação difícil, podemos não estimular o hábito agressivo e observar o que acontece.

A pausa é muito útil nesse processo. Ela cria um contraste momentâneo entre a total auto absorção e o fato de estar desperto e presente. Pare por alguns segundos, respire fundo e prossiga seu caminho. Isso não é um projeto. Chögyam Trungpa referia-se a essa pausa como um intervalo que interromperá qualquer coisa que esteja fazendo. O mestre budista vietnamita, Thich Nhat Hanh, ensina essa pausa como uma prática consciente. Em seu monastério e nos centros de retiro, em determinados intervalos alguém toca um sino, e, ao ouvir o som, todos param por um breve instante para respirar fundo e conscientemente. Em meio à vida comum, que, em geral, é uma experiência que nos aprisiona, caracterizada por muita discussão interna, faça uma pausa.

Ao longo do dia, escolha o momento de fazê-la. Talvez seja difícil de se lembrar no início, mas assim que começar a praticá-la, a pausa o alimentará; será preferível a se sentir encurralado.

As pessoas que acharam esse hábito útil criaram maneiras de inserir pausas em suas vidas ocupadas. Por exemplo, elas colocam uma palavra, um rosto, uma imagem, ou um símbolo no computador, qualquer coisa que funcione como um lembrete. Ou decidem: “Sempre que o telefone tocar, vou fazer uma pausa”. Ou: “Quando ligar meu computador, farei uma pausa”. Ou: “Ao abrir a geladeira, esperar na fila, ou escovar os dentes…”. Você pode usar como lembrete qualquer coisa que aconteça com frequência durante o dia. Não importa o que estiver fazendo, pare por alguns segundos e respire fundo três vezes.

Algumas pessoas me disseram que acham enervante parar o que estão fazendo. Um homem falou que, quando interrompe uma atividade, tem a sensação de morte. Isso demonstra o poder do hábito. Associamos agir como de costume com segurança, estabilidade e conforto. Sentimos, assim, que temos algo a que nos apegar. Nosso hábito nos impele a mover-nos em alta velocidade, conversando com nós mesmos, e ocupando o espaço. Mas hábitos são como roupas. Podemos vesti-las e tirá-las. No entanto, como bem sabemos, quando nos apegamos às roupas, não queremos tirá-las. Temos a sensação de estarmos expostos demais, nus diante de todos; sentimo-nos perdidos, inseguros, sem saber o que está acontecendo.

Pensamos que é natural, mesmo sensato, evitar esses sentimentos desagradáveis. Se você decidir, com grande entusiasmo, que todas as vezes que ligar o computador fará uma pausa, poderá objetar: “Bem, agora não posso parar porque estou com pressa e tenho quarenta mil coisas para fazer.” Achamos que essa incapacidade ou relutância em diminuir o ritmo está associada a circunstâncias externas, porque temos vidas muito ocupadas. Mas lhe direi que, nos meus três anos de retiro, descobri que não está associada à falta de tempo. Poderia estar sentada em minha saleta olhando o oceano, com o tempo todo do mundo à minha frente. Porém, ao meditar em silêncio, essa sensação desconfortável me envolvia; sentia que precisava apressar minha sessão para fazer algo mais importante. Quando vivenciei essa experiência, percebi que todos nós temos esse mecanismo de defesa muito arraigado. A sensação é, na verdade, a recusa de estar totalmente presente.

Em situações extremamente tensas, ou a qualquer momento, podemos nos desvencilhar de nossos hábitos baseados no medo fazendo apenas uma pausa. Assim, abrimos espaço para contatar a abertura natural de nossa mente e deixamos nossa inteligência natural emergir. A inteligência natural sabe, por intuição, o que nos acalmará e o que nos agitará ainda mais; essa pode ser uma informação que nos salvará a vida.

Quando fazemos uma pausa, também propiciamos a oportunidade de contatar nossa cordialidade natural. No momento em que as qualidades do coração despertam-se, elas interrompem nossa negatividade como nenhum outro recurso. Um soldado no Iraque contou a seguinte história: em um dia muito bonito, ele viu de novo seus colegas soldados, pessoas de quem gostava, explodirem no ar. E, mais uma vez, ele e todos os outros em sua divisão desejaram se vingar. Quando localizaram alguns iraquianos que, provavelmente, eram responsáveis pela morte de seus amigos, entraram na casa escura deles, e por causa da raiva e da situação claustrofóbica em que respiravam violência, os soldados expressavam sua frustação espancando os homens.

Então, quando iluminaram os rostos dos prisioneiros com a lanterna, viram que um deles era um menino com síndrome de Down.

Esse soldado americano tinha um filho com síndrome de Down. A visão do garoto partiu seu coração e, de repente, percebeu a situação de uma forma diferente. Sentiu o medo do menino e viu que os iraquianos eram seres humanos iguais a ele. Seu bom coração era forte o suficiente para interromper seu ódio contido, e parou de brutalizá-los. Em um momento de compaixão natural, sua perspectiva da guerra e do que estava fazendo mudou.

Em geral, a maioria da população do mundo é incapaz de perceber quando está prestes a explodir, ou a pensar que é importante diminuir o ritmo da reação em cadeia. Em grande parte dos casos, a energia crescente traduz-se rapidamente em reações e discursos agressivos. No entanto, a inteligência, a cordialidade e a abertura estão sempre acessíveis. Se tivermos consciência das circunstâncias à nossa volta, podemos parar e revelar essas qualidades humanas básicas. O desejo de vingança, uma mente preconceituosa, tudo isso é temporário e passível de ser eliminado. Não é um estado permanente. Como Chögyam Trungpa dizia, “O equilíbrio mental é permanente, a neurose, temporária.”

A fim de encarar com honestidade a dor em nossas vidas e os problemas do mundo, vamos começar a olhar com compaixão e sinceridade para nossas mentes. Podemos ficar íntimos com a mente do ódio, a mente que polariza, a mente que transforma alguém em “outro” moralmente condenável e com o comportamento incorreto. Descobrimos com grande ternura o lobo zangado, hostil, que não perdoa. Ao longo do tempo, essa parte de nosso ser torna-se familiar, porém não mais a alimentarmos. Em vez disso, somos capazes de escolher alimentar a receptividade, inteligência e cordialidade. Essa escolha, essas atitudes e ações subsequentes assemelham-se a um remédio que tem o potencial de curar qualquer sofrimento.

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07/09/2014 - Posted by | Espiritualidade

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