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Diante das conquistas femininas, o homem abre o coração e assume que quer carinho

homem frágilTrancado do lado de fora de casa completamente despido, o protagonista do conto “O homem nu”, de Fernando Sabino, enfrenta o escrutínio alheio enquanto, próximo ao desespero, busca uma maneira de resolver sua incômoda situação. Uma jornada que serve de metáfora para os conflitos vividos pelo macho heterossexual diante das novas demandas femininas. A diferença entre ficção e realidade é que, hoje, muitos deles estão dispostos a expor os seus corpos e sentimentos em busca de uma vida mais leve — em casa, no trabalho, na cama. Sim, o homem está nu e não é para “comer” uma menina 20 anos mais jovem.

Não é novidade que o modelo tradicional do heterossexual — provedor, viril, forte e racional — está em crise. A liberdade conquistada pelas mulheres (e suas inúmeras possibilidades de escolha) tirou deles a obrigação de dar segurança a elas. E mais: permite aos homens expor suas próprias demandas, como explica a antropóloga Mirian Goldenberg:

— Nas minhas pesquisas, as mulheres dão uma lista com 500 queixas. Eles apresentam apenas uma, básica: falta de cuidado e de gentileza. Elas dizem que eles querem uma mãe, mas eu nunca ouvi um homem falar isso. O que eles pedem é carinho físico. Querem perceber que elas pensam neles — conta Mirian, que lança no dia 23 o romance “Sexo”, em que narra as neuras de uma mulher à espera do telefonema dele após uma noite de sexo casual. — As mulheres vivem uma situação paradoxal, entre a liberdade conquistada e os valores românticos que ainda persistem. Elas querem coisas a que nenhum homem consegue corresponder. Elas querem o George Clooney! — diz.

Aprisionados entre os seus próprios desejos e a pressão para ser George Clooney, estariam os homens na berlinda?

— Eu diria que os homens estão num processo de transformação, ainda um pouco perdidos. É como se viesse uma onda gigantesca e os derrubasse. Eles caem, levantam meio destrambelhados, e lá vem outra onda e os derruba. E, assim, ainda não conseguiram chegar à areia sãos e salvos — resume o jornalista Sergio Haziot, autor do blog “Como conquistar uma mulher”. — No Brasil, infelizmente, ainda há machões e mimados. Mas há algo novo surgindo, timidamente — diz.

Algo novo, certamente, foi o que vimos esta semana. A atriz Zoe Saldana veio a público afirmar que o marido adotaria o seu sobrenome, tornando-se Marco Saldana. No Facebook, ela escreveu: “Homens, vocês não vão deixar de existir por adotarem o sobrenome de suas companheiras”. Por aqui, a editora Intrínseca anunciou que “Grey”, novo livro da série “50 tons de cinza”, será lançado no Brasil em setembro. Nele, a história é contada pelo ponto de vista do homem, do sexo safadinho aos motivos que levaram o protagonista Christian Grey a cair de amores por Anastasia Steele. O canal GNT estreou “Papo de Segunda”, uma espécie de versão masculina do “Saia Justa”, em que quatro homens conversam sobre tudo: do futebol ao comportamento feminino. Sem falar que o corpo mais comentado dos últimos dias não foi o de uma mulher, mas o do ator Rodrigo Lombardi, no primeiro capítulo da novela “Verdades Secretas”.

— Os homens estão ressignificando o seu lugar — afirma a diretora do GNT, Daniela Mignani, que encomendou um estudo sobre a relação entre homens e mulheres. — Hoje, eles são mais parceiros delas e estão se abrindo, a ponto de prepararmos uma temporada do programa “Boas-vindas” sob a perspectiva da paternidade — conta Daniela. O canal também decidiu apoiar a campanha da ONU Mulheres #HeForShe, que busca conscientizar os homens para a igualdade de gêneros. Com o nome de #ElesPorElas, o GNT quer coletar 100 mil assinaturas de homens brasileiros.

O mesmo movimento que faz homens se engajarem em campanhas pela igualdade de gêneros tem lhes permitido abrir o verbo, como faz bem o músico Leo Jaime: “Ninguém se preocupa com o fato de o homem heterossexual viver dez anos a menos do que as mulheres”, “Quando ela é a figura forte do casal, o homem é estigmatizado”, “As mulheres esperam que a gente tenha solução para tudo” e “Homens também gostam de ser cortejados”.

— Há um formato machista que ainda fundamenta os relacionamentos, levando o homem a lidar de uma forma rude com sua sexualidade e suas emoções. Os brasileiros são mal resolvidos e não têm uma vida sexual boa, mas dizem coisas como “Eu sou homem e não preciso de ajuda” ou “Não existe trepada ruim, só trepada perdida”. Isso tudo é uma bobagem — resume Leo.

Companheiro de Leo Jaime no “Papo de Segunda”, João Vicente de Castro acha que os dias do machão estão contados:

— Acho que caminhamos para um modelo de relacionamento igualitário, sem estereótipos de gênero. A vida fácil está terminando para o cara que se acha o fodão. Como é feio ser machista, eles não falam nada, mas sentem o desconforto. Se homem fosse seguro, não teria tanto medo do feminismo.

Essa insegurança bate à porta dos psicanalistas, como narra o terapeuta de família Moisés Groisman:

— A maior parte dos casais que me procura o faz por iniciativa da mulher. Muitos homens foram treinados para ser como o avô e o pai e não conseguem acumular várias funções. Eles têm se sentido muito solicitados e ainda não sabem como lidar com isso. Mas há uma geração entre 30 e 40 anos que tem colaborado mais — explica.

Em meio a seus conflitos, uma coisa eles têm como certa: a mulher real é sexy, nos conta Leo Jaime:

— As coisas com as quais as mulheres se preocupam estão longe do interesse do homem. Se um cara reclamar que a mulher não está depilada, pode mandá-lo embora porque ele não é do ramo. E não precisam comprar lingerie cara ou fazer pose. Calcinha bonita é calcinha no chão!

Por Renata Izaal

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26/06/2015 - Posted by | Artigos, Comportamento

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