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A beleza da imperfeição

beleza da imperfeição1Certo dia, a tempos atrás, eu impedi a minha mãe de fazer algo terrível: jogar fora uma concha com décadas de história que havia pertencido a sua mãe. Aquele pedaço de metal rugoso parece ser tão mais antigo e esconde uma beleza que não me permitiu deixa-la jogar fora.

Jamais pensei que fosse comentar esse episódio banal algum dia, tampouco escrever, mas ele passou a fazer sentido quando eu me deparei com uma antiga filosofia japonesa chamada wabi-sabi (não confundir com o tempero verde que acompanha o sushi). O termo usado há séculos prega a valorização do imperfeito, do antigo e da simplicidade e vai na direção oposta da sociedade consumista que ama o novo e as compras.

O jeans rasgado da moda ou do punk, a pátina nas paredes, os tijolos à mostra inspirado nos lofts de Nova York e os móveis feitos com madeira de demolição são alguns exemplos de que realmente existe beleza na imperfeição. Entretanto, eles não carregam os valores da filosofia oriental, que surgiu no final do Japão feudal como sinal de protesto às suntuosas cerimônias de chá promovidas pelos ricaços da época.

Tomar chá com alguém é tradição há séculos no oriente, um costume proveniente da tradição Zen, mas que deixou de ser uma atividade simplória e afetuosa para se tornar um meio de demonstrar riqueza e poder no Japão feudal.

Naquela época, era costume dos senhores feudais terem seus mestres de chá — que coletavam ervas e preparavam as cerimônias. Um deles era Sen no Rikyū que devido a confiança que tinha do seu senhor, tomou a liberdade de criar um novo jeito de tomar chá. Rikyu que havia recebido treinamento da escola Zen quando jovem, introduziu coisas do dia a dia, tornando a cerimônia muito mais simples e calorosa. Como ele trabalha para um poderoso senhor da época, o novo jeito de tomar chá ganhou popularidade e acabou se tornando o padrão.

Rikyu usava lugares pequenos em que os convidados (em menor número) pudessem ficar próximos, flores em cestos de pescadores para decorar e introduziu conchas e tampas e a chiquérrima porcelana dera lugar à madeira e o bambu. Ele dava preferência a objetos fabricados localmente em vez dos caríssimos vindo da China. Isso deu aos japoneses daquela época (acostumados à dualidade da guerra, luxo e destruição) uma nova perspectiva. Agora, tomar chá com alguém não era exclusivo dos mais ricos. Estava ao alcance de todos.

A origem da palavra wabi se deu na poesia e como descreve o livro Less Is More, é “o que você sente quando está esperando o seu amor”. Sabi significa “o desabrochar do tempo”. Não se sabe quando elas se uniram nem como, mas juntas seu significado ganhou poder promovendo um estilo de vida frugal, que valorizava a idade, a imperfeição e a ordem natural das coisas.

Pegando emprestado uma frase do livro, “wabi-sabi é imperfeição: um amado vaso desgastado ou uma velha e marcada mesa de madeira.” Como a concha da minha avó. A primeira lição da cerimônia de chá baseada no wabi é encontrar e admirar beleza em cada utensílio, reverenciando objetos que usamos diariamente.

Enquanto o wabi-sabi lhe ensina a valorizar a imperfeição e os efeitos do tempo, mas não a sua deterioração completa, o Kintsugi, uma outra espécie de filosofia oriental, surgiu a partir da reconstrução de algo destruído para criar algo novo, mais belo e valioso, ao enfatizar as marcas da destruição. Vou explicar melhor.

beleza da imperfeição2

O Kintsugi é a arte de reconstruir cerâmica com ouro, prata ou platina. O resultado é algo belo, diferente e, mais importante, que carrega uma história em que o dano deu origem a beleza.

Nascido quase na mesma época do “The Way of Tea” de Rikyu, o Kintsugi nasceu da insatisfação de um líder samurai com a forma com que os chineses haviam consertado uma tigela (usando grampos) que ele havia enviado. Então, artesãos japoneses desenvolveram um novo e belo método de conserto que agradou tanto que pessoas passaram a quebrar suas próprias peças para poderem aplicar o Kintsugi.

Trazendo para a nossa vida, o Kintsugi é uma outra forma de ver beleza na imperfeição e acreditar na renovação. Ele permite que possamos prosseguir — de um jeito melhor ainda — após o erro, a tristeza e a destruição. Para a banda Death Cab for Cutie que batizou seu novo disco com a palavra japonesa (e onde conheci a palavra), Kintsugi é continuidade. O que faz todo sentido para uma banda que depois de 17 anos perde seu fundador e passa a ser um trio em vez de um quarteto.

Desde cedo, somos ensinados que velho é um sinal para substituir. Se está quebrado, deve ir para o lixo. E que, de tempos em tempos, é bom dar uma renovada na casa, no guarda-roupas e onde mais a conta bancária permitir. Adoramos o novo, o belo, o perfeito. Porém, o novo tem uma característica cruel, a efemeridade. Logo perde o que o torna tão valioso e nos leva de volta à busca sem fim por alguma outra novidade.

Todos nós temos uma história, e eu acredito que são as marcas que carregamos que definem se essas histórias merecem ou não ser contadas. São os altos e baixos que dão ritmo à vida, sem a tempestade não daríamos valor à calmaria. Precisamos parar de dizer que “o tempo é cruel”, que ele não perdoa. Somos nós os cruéis, somos nós que não perdoamos. Somos nós que tornamos ele o vilão ao dizer que ele é sempre insuficiente.

A beleza não está no objeto, mas nos olhos. Como uma vez escreveu Henry David Thoreau, um dos principais nomes do transcedentalismo (movimento inspirado pelo wabi-sabi), “Não é o que você olha que importa, mas o que você vê.”

 

29/06/2015 - Posted by | Arte

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