PrimeLife (Ano V)

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É possível falar sem machucar

Fugimos de conflitos como se fossem destrutivos. Mas, e se os entendêssemos como oportunidades de gerar intimidade e autoconhecimento? A Comunicação Não-Violenta (CNV), desenvolvida pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg e sua equipe ao longo de 50 anos, nos convida a olhar para situações de atrito de outra maneira, explorando possibilidades de colaboração e compaixão em vez de reações típicas pautadas por uma lógica viciada. À base de princípios universais como paz, justiça, dignidade, segurança, liberdade e amor, a prática defende que é possível se relacionar de forma clara, mesmo perante comportamentos desafiantes.
 
A estratégia é levar a atenção para além das palavras e abrir a mente e o coração para o real sentido por traz delas. Inicialmente, os exercícios de CNV foram realizados em escolas marcadas por brigas de gangues de rua nos Estados Unidos. Hoje, estão presentes em mais de 65 países. O inglês Dominic Barter, após anos de convívio com Marshall (falecido em fevereiro de 2015), preside o conselho do Centro Internacional de Comunicação Não-Violenta. Radicado no Brasil há 23 anos, dedica-se a projetos que aplicam os Círculos Restaurativos, processo de resposta comunitária ao conflito nascido nos morros do Rio de Janeiro e utilizado por instituições, grupos e sistemas como o de justiça. A comunicação como veículo de paz é o assunto das próximas páginas.
Em suma, o que é a Comunicação Não-Violenta?
 
É uma maneira de focar a atenção naquilo que nos une. Normalmente, estamos focados em nossas diferenças e não em nossas semelhanças. Isso permite enxergar a diversidade, mas também pode gerar separação. Até mesmo nas famílias. Como pai de uma adolescente, vejo o surgimento de uma pessoa com ideias próprias. Porém, às vezes não concordo com as ações dela. Só que a punição nos custa muito enquanto pai e fi lha e é pouco eficaz. Prefiro, então, engajar minha filha num diálogo respeitoso e firme. “Quando vejo você tomar essa atitude, fi co bastante preocupado. Me importo muito com seu futuro e quero entender o que você está procurando quando age assim. É a liberdade que está prezando? Ou o que interessa é fazer parte do grupo?”. Os acordos que resultam disso têm muito mais chance de serem cumpridos.
 
Às vezes, falamos a verdade do que estamos sentindo e geramos mais atrito. Como favorecer a compreensão de visões diferentes?
 
A CNV coloca nossa atenção no sentido do que o outro está dizendo, que não é necessariamente expresso pelas palavras usadas. Cada expressão, mesmo aquelas mais desafiadoras de ouvir, são tentativas de demonstrar valores e princípios muitas vezes compartilhados por todos. Por trás de algumas das atitudes mais destrutivas que já tive contato, havia o desejo frustrado de contribuir para a justiça, a verdade, o amor e a compreensão. Ouvi milhares de pessoas que cometeram atos dolorosos e posso dizer que nunca houve uma ocasião em que a motivação mais
profunda para tanto não fosse algo que eu também encontrava em meu coração. Esses valores estão ocultos até que a gente escute não somente o que a pessoa fala, mas também a humanidade de quem fala.
 
E como podemos fazer isso?
 
Não existe um “como” para conseguir escutar o outro. No momento em que estabelecemos o “como”, colocamos o poder de agir em algum lugar externo a nós, como se fosse estranho ouvir o outro com sua humanidade. Não tem nada de estranho nisso. O que é estranho é as pessoas não se comportarem mais assim. Vale lembrar que sentimentos de satisfação ou insatisfação não vêm de fora. Não é o outro que faz você feliz, nem irrita você. Assumir a responsabilidade por nossos sentimentos traz imenso alívio para as relações.
Comunicação Não-Violenta e não-violência são a mesma coisa? Não-violência é uma vasta área de pesquisa e ação sobre o comportamento humano e CNV é uma maneira de fazer a grandeza da não-violência ser simples e acessível no dia a dia.
 
Como?
 
A escuta é um ótimo exemplo. Mesmo sabendo do poder que a escuta genuína tem de facilitar o entendimento, enquanto conversamos estamos mais preocupados em responder mentalmente ao que surge no discurso do que em ouvir sinceramente quem está falando. Poucos minutos de escuta são capazes de mudar totalmente a maneira como entendemos o comportamento de nosso parceiro, por exemplo, criando espaço para maior entendimento e satisfação na relação.
Débora Medeiros

27/10/2015 - Posted by | Comportamento

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