PrimeLife (Ano V)

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O valor daquilo que somos

o mundo é a oportununidadeEla é constantemente associada a submissão, pobreza e até inferioridade. Aí, entender a humildade como uma virtude que nos aproxima de nós mesmos não parece um trabalho fácil. Mergulhar nessa descoberta, no entanto, pode nos trazer um aprendizado profundo sobre quem somos de verdade. E não apenas em relação às nossas fraquezas e dificuldades mas também sobre o nosso valor. Momentos de tragédias, como a lama que invadiu a região de Mariana, em Minas Gerais, após o rompimento da barragem da mineradora Samarco, ou até mesmo os atentados a Paris, no final do ano passado, parecem nos fazer despertar para a humildade enquanto fragilidade da vida. “Só percebemos nossa impotência nesses momentos porque o choque nos reconecta com a realidade e dá a dimensão de nosso tamanho. Na maior parte do tempo, vivemos a ilusão de termos o poder absoluto”, diz o xeique Muhammad Ragip, representante  da Ordem Sufi Halveti Jerrahi no Brasil, escola do islamismo que busca o conhecimento e a humildade como orientação da conduta. No cotidiano, uma pessoa humilde é vista de forma equivocada como quem se humilha ou acata tudo o que os outros falam. Mas ela passa longe disso: humildade é sinônimo de distinção, gentileza, simplicidade e principalmente de autoconhecimento. “Não significa perder a dignidade pessoal, mas valorizar o próprio esforço sem se comparar aos outros”, diz Ragip. Com frequência, essa qualidade também é confundida com o hábito de subestimar a si mesmo, um vício tão prejudicial quanto a arrogância. Essa falsa modéstia acontece quando fingimos ignorar o nosso valor, funcionando até como tática para receber mais elogios. Outra faceta de uma humildade forjada é o autodesprezo, quando sinceramente desvalorizamos o que é nosso não porque somos humildes, mas porque no fundo comparamos excessivamente nossos atributos e façanhas com os dos outros. Segundo Ragip, o valioso é buscar o equilíbrio: “Todos temos qualidades e pontos fracos, mas não podemos nos fechar e perder a consciência do Universo”. O conhecimento e a aceitação de seus próprios limites é o principal instrumento a favor dos humildes. Buda dizia: “De que servem cabelo e manto impecáveis se tudo dentro de ti está confuso e no entanto penteias a superfície?” Autoridade máxima do budismo tibetano, o dalai lama Tenzin Gyatso costuma dizer que é “um simples monge budista, nem mais nem menos”. Para o psicólogo paulista Roberto Rosas, a dificuldade em praticar a humildade reside na nossa cultura narcisista, que privilegia o egoísmo e a performance. Vivemos cada vez mais em função do sucesso, da riqueza, da diferenciação social. Dessa forma, acredita Rosas, “é mais fácil tomar antidepressivo a encarar a insegurança e rever o orgulho”.  Segundo ele, crises pessoais, financeiras, mortes e doenças podem ser momentos de aprendizagem e reflexão. E não é vergonha admitir o erro e perguntar: como é possível melhorar? “Quando olhamos para nós mesmos e enxergamos nossas falhas, temos a chance de crescer e desenvolver a virtude da modéstia”, afirma o xeique Ragip.

Instrumento de mudança 
A falta de humildade é um sintoma de que algo precisa ser mexido no interior de cada um de nós. Segundo o filósofo francês André Comte-Sponville, da Universidade Paris I e autor do livro Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (Martins Fontes), “a grandeza dos humildes é ir ao fundo de sua pequenez, expostos sem máscara ao amor e à luz”. O tema, aliás, já foi bastante abordado na filosofia. O também francês Blaise Pascal (16231662) dizia que o homem perdeu o contato com Deus e disfarça uma segurança que não tem. Outro francês,  René Descartes (1596-1650), escreveu que “os mais generosos costumam ser os mais humildes” e, para Santo Agostinho (354-430), “onde está a humildade também está a caridade”. Parece que esse valor tem a ver com olhar para o outro de igual para igual, não na comparação ou na superioridade, e sim no sentimento de reconhecer que cada um de nós tem a sua própria jornada, e todos somos humanos. O curioso é que essa qualidade pode ser até uma parceira na conquista dos nossos objetivos. Embora pareça fragilidade ou inferioridade, ela na verdade fortalece nossa autoestima. Traz o poder de confortar, ajudando-nos a nos sentir bem inclusive com o que temos e com aquilo que somos, sem comparações. Mas não funciona forjar a humildade. Quem afirma com toda a certeza “sou muito humilde” está se contradizendo. Dizer “falta-me humildade” se torna o primeiro passo em direção à virtude. A modéstia é tão modesta que geralmente duvida  de si mesma. E a humildade não se subestima: é justa e nítida com suas forças e suas limitações. 
Virtude da medida
 O professor e teólogo Edmundo Pelizari, da Associação Palas Athena, de São Paulo, soube tirar do dia a dia profissional algumas lições sobre humildade e orgulho: “Temos sempre os dois lados convivendo dentro da gente, mas devemos saber a diferença entre baixar a cabeça e ser humilde e ter uma postura firme sem ser arrogante”, diz ele. Certa vez, o professor mandou um aluno “calar a boca”, pois ele não parava de conversar durante uma aula. Imediatamente o estudante e a classe reclamaram. “Se fosse outra época, ia apenas ser autoritário com a turma, mas precisei exercitar a humildade e admitir que havia outros modos de chamar a atenção sem perder o respeito, como dizer para ele se retirar da classe se não estava interessado no assunto”, diz. “Admiti o erro, pedi para ele se comportar nas próximas aulas, e funcionou muito mais do que tentar conseguir as coisas no grito.” Muitas vezes ressaltamos a arrogância para nos sentirmos invencíveis. A verdadeira sabedoria, contudo, segue o lado oposto, e trabalhar a humildade pode ser o caminho para chegar a ela. Como diz a escritora Clarice Lispector, “o orgulho é coisa infantil em que se cai como se cai em gulodice. Só que o orgulho tem a enorme desvantagem de ser um erro grave, faz perder muito tempo”. E também muita energia. 
Um aprendizado pela frente 
Os antigos gregos respeitavam e temiam Nêmesis, a deusa da Justiça, porque acreditavam que ela punia duramente os que praticassem a arrogância, a chamada húbris. Os arrogantes recebiam castigos terríveis porque estariam desafiando os limites impostos pelos deuses à humanidade. Não havia atenuações para os que desejavam demais. Esse é apenas um dos fatos interessantes relatados da História da Arrogância (Axis Mundi), do psicólogo italiano Luigi Zoja. Resultado de oito anos de pesquisas, a obra discute a incontrolável necessidade humana de querer sempre mais sem considerar as consequências disso. Os excessos da civilização ocidental, com os problemas ambientais cada vez mais agravados e a exploração desenfreada de nosso planeta são atualmente bastante discutidos, mas apenas no aspecto técnico. Ainda nos falta levar em conta o efeito nocivo que isso promove na alma. Somente dessa maneira é que vamos conseguir nos afastar da ilusão e nos aproximar de verdade do universo. “É uma perfeição absoluta, e como que divina, saber desfrutar honestamente de seu próprio ser”, escreveu o filósofo francês Michel de Montaigne (1533-1592). “Procuramos outros atributos por não sabermos utilizar corretamente os nossos, e saímos de nós mesmos por não sabermos o que em nós se passa. No entanto, pouco adianta subir em pernas de pau, pois mesmo em pernas de pau ainda teremos de caminhar com nossos próprios pés.” Assim, de nada tem a ver a humildade com parecer inferior. Mas com se conhecer integralmente. É claro que nenhuma pessoa se conhece na sua totalidade, de maneira perfeita. E tudo bem, pois faz parte da modéstia identificar a não perfeição – caso contrário, isso teria mais a ver com a tal arrogância. Assim, a humildade é também uma forma de honestidade e lucidez, sem autoenganos. “A honestidade lúcida, impiedosa e sem ilusões é uma contínua lição de modéstia, assim como a modéstia é um eterno auxílio à honesta avaliação de si mesmo”, escreveu o filósofo francês Vladimir Jankelévitch (1903 – 1985) no Tratado das Virtudes.
Por esses motivos, a humildade não só retira a máscara daquilo que não somos mas também serve de apoio às virtudes que temos, ensinando que elas não são uma vitrine, mas o aprimoramento de nós mesmos.
Débora Zanelato

29/04/2016 - Posted by | Autoconhecimento

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