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Quem sabe, nem sempre sabe

Quando um amigo disse-lhe que o oráculo de Delfos havia apontado Sócrates como o mais inteligente dos homens, o próprio Sócrates achou que aquilo era um absurdo. Afinal de contas, ele não cansava de dizer que não sabia nada. Este era o cerne de sua pregação, a base das famosas investigações dialéticas que deram origem à filosofia ocidental.
Como escreveu Platão no livro Apologia de Sócrates, ele tratou então de investigar o assunto. Depois de conversar com os grandes sábios de Atenas – artesãos, militares, políticos – concluiu que sim, o oráculo talvez tivesse razão. Porque ninguém sabia nada, mas todos achavam que sabiam muito. Sócrates era o único que sabia que não sabia.
Vinte e quatro séculos depois, o então secretário da Defesa dos Estados Unidos sob o governo Bush, Donald Rumsfeld, popularizou um conceito semelhante. Segundo ele, há coisas que nós sabemos que sabemos, há o que não sabemos que sabemos, há o que sabemos que não sabemos e, o quadrante mais perigoso de todos, aquilo que não sabemos que não sabemos.
É deste último quadrante que trata o livro The Knowledge Illusion: Why We Never Think Alone (“A ilusão do conhecimento: por que nós nunca pensamos sozinhos”, numa tradução livre), de Steven Sloman e Philip Fernbach, dois pesquisadores especializados em ciência do conhecimento.

No caso de Rumsfeld, os “desconhecidos”, como os definiu, eram cruciais. O maior perigo para a segurança vem da surpresa – como demonstrou o trágico ataque terrorista às torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, em setembro de 2001. Há um forte argumento de que o mesmo vale para o dia a dia de qualquer um de nós.
Os piores riscos são aqueles para os quais não estamos preparados. É o que o analista e escritor Nassim Taleb chamou de “cisnes negros”: baques fora da curva de nossas expectativas, como o terremoto de Fukushima, que destruiu uma usina nuclear projetada para aguentar terremotos com a força que costumavam ter no passado, ou a crise de 2008, derivada do colapso de investimentos que as pessoas achavam que entendiam.

A ilusão de conhecimento está em todo lugar. Na escola, por exemplo, os alunos seguem o raciocínio do professor, concordam com ele… e acham que dominaram a matéria. Quando precisam usar aquele conhecimento, percebem que não o têm. Da mesma forma, se alguém lhe ensina um caminho, você acredita que já sabe chegar ao seu destino – até que, na segunda curva, está novamente perdido. “O mais minúsculo pedaço de conhecimento nos faz nos sentir especialistas”, dizem os autores.
“Quando nos sentimos especialistas, começamos a falar como especialistas. E acontece que as pessoas com quem falamos também não entendem muita coisa. Então, em relação a elas, somos especialistas. Isso aumenta o nosso sentimento de que entendemos das coisas.”

O resultado disso é que, mesmo sem saber nada de meteorologia ou biologia, travamos duros debates sobre mudanças climáticas ou transgênicos. Sem entender as contas do governo, firmamos posição intransigente sobre a reforma da Previdência.

Boa parte da nossa ilusão de conhecimento, dizem Sloman e Fernbach, é uma confusão de fronteiras. Nós achamos que a compreensão está em nosso cérebro, mas ela está espalhada por uma rede de conhecimento coletivo.
“Nossa inteligência reside não nos cérebros individuais, mas na mente coletiva”, dizem. “Para funcionar, os indivíduos se apoiam não somente no conhecimento armazenado em suas cabeças, mas também no conhecimento guardado em outros lugares: nossos corpos, no ambiente, e especialmente em outras pessoas.”
Temos a impressão de ter todo o conhecimento do mundo na ponta dos dedos (desde que os dedos estejam perto de um teclado com conexão à internet). Em outro livro recente, The Enigma of Reason (“O enigma da razão”, numa tradução livre), uma outra dupla de cientistas cognitivos, Hugo Mercier e Dan Sperber, argumenta que a razão humana evoluiu de forma comunitária. Nosso cérebro não se desenvolveu para lidar com problemas lógicos, nem mesmo para extrair conclusões de dados esparsos, dizem. Ele se desenvolveu para resolver os problemas impostos pela vida em comunidade.
A tese não é nova. Na década de 90, o psicólogo evolucionista Robin Dunbar comparou diversas espécies de primatas e concluiu que o tamanho do cérebro guarda uma forte correlação positiva com o tamanho das comunidades.
Talvez por simplificação, mas certamente também por um mecanismo de mistificação, tendemos a atribuir a indivíduos o esforço que em geral é coletivo. Steve Jobs conseguiu sozinho levantar a Apple? Martin Luther King ergueu do nada o movimento de direitos civis nos Estados Unidos?

“A ilusão do conhecimento ocorre porque nós vivemos numa comunidade de conhecimento e não conseguimos distinguir entre a sabedoria que está em nossas cabeças e a que está fora delas”, dizem Sloman e Fernbach. E isso nos leva a tomar decisões piores.
Como o nosso modelo mental ainda é o de indivíduos racionais, capazes de chegar sozinhos a decisões sensatas, a maior parte dos programas de melhora nas decisões trata de prover mais informações – são os cursos de finanças pessoais, os programas de elucidação de riscos à saúde etc. Mas, como diz Dan Kahan, professor de direito de Yale, nossas atitudes não são baseadas na avaliação sóbria das evidências. Elas têm a ver com crenças comunitárias, com valores culturais compartilhados, com os mecanismos de formação da nossa identidade.
Para melhorar os nossos processos de decisão, argumentam Sloman e Fernbach, não basta melhorar o nível de informação, e não basta atuar no nível individual. É preciso alterar valores, modificar crenças, estabelecer novas conexões sociais. Como fazer isso é que são elas. Os dois autores não fornecem muitas pistas nessa direção. Parecem ter chegado apenas ao nível de Sócrates: descobriram que não sabem nada.

The Knowledge Illusion: Why We Never Think Alone

Editora: Pan Macmillan

Autores: Steven Sloman e Philip Fernbach

304 páginas

David Cohen

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07/06/2017 - Posted by | Livros, Psicologia

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